quinta-feira, 17 de março de 2011

Sistema Bimetálico X Padrão Ouro (1870 – 1913)


Introdução:
Este trabalho ambiciona descrever e comparar as principais características do sistema bimetálico e do padrão-ouro (1870-1914). Para isso, contamos com pelo menos duas  interpretações. Por fim, discutirei qual sistema é mais estável.
Para um melhor entendimento, divimos o trabalho em três partes. A primeira tem por objetivo apresentar as características mais importantes do bimetalismo e suas dificuldades em se manter como o padrão do sistema monetário. Já na segunda parte destacamos as características do Padrão Ouro e seus mecanismos de ajuste. Por fim, comparamos as teorias, anteriormente expostas por Eichengreen com as conclusões de Triffin a respeito do padrão-ouro.
Veremos que Eichengreen ira dizer que o padrão ouro era estável. No entanto, Trifin argumentava que este sistema somente alcançava a estabilidade em nações já desenvolvidas (centro) e não nos países em desenvolvimento (periferia).  Isso contradiz a tese de Eichengreen, na qual afirma que a estabilidade era alcançada através do mecanismo de ajuste automático de Humme. Eichengreen também defendia que a taxa de redesconto controlava o fluxo de ouro, ou seja, através da taxa de redesconto o Banco da Inglaterra controlava a estabilidade do sistema. A conclusão final que chegaremos é que o padrão-ouro era instável, mas a Inglaterra mantinha  a sensação de estabilidade devido a sua importância no cenário mundial. Com a mudança no cenário e a queda da hegemonia inglesa o sistema acaba se ruindo, consequência direta do início da Primeira Guerra Mundial. O padrão mundial durou de 1870 a 1914, contudo sua estabilidade foi uma mera sensação.


Sistema Bimetálico


Segundo Eichengreen, no início do século XIX, somente a Grã-Bretanha havia adotado plenamente o padrão ouro. Os países que haviam adotado os padrões bimetálicos faziam o papel de ligação entre os blocos de nações que praticavam, de um lado, o padrão ouro e, de outro, o padrão prata.
Entretanto, o autor afirma que não era fácil manter a circulação simultânea de moedas de ouro e de prata, uma vez que se ocorresse uma alta no preço internacional do ouro em relação à prata (ou vice-versa), geraria incentivos à arbitragem, o que por sua vez levaria o sistema a instabilidade. Ou seja, permitia não apenas recuperar o investimento como também obter uma quantia adicional de prata (ou ouro). Dessa forma, os especuladores importariam prata e exportariam ouro até que todas as moedas de ouro no país tivessem sido exportadas. Esse movimento é descrito pela Lei de Gresham, no qual o dinheiro ruim (no exemplo, prata) expulsa o dinheiro bom (ouro).
Entretanto, a circulação simultânea de moedas de ouro e de prata não era ameaçada por pequenos desvios entre as proporções de mercado e de cunhagem, pois os governos cobravam uma comissão nominal (brassage) para cunhar moedas a partir de lingotes de ouro. Portanto, era necessário que a diferença entre as proporções de mercado e de cunhagem fosse superior a esse custo para que a arbitragem fosse lucrativa. Ademais, a arbitragem levava tempo para ser concluída, além de que havia custos de transporte e de seguros.
O fato de em alguns países, como a França, ser possível cunhar moedas em um ou outro metal a uma taxa de câmbio fixa operava no sentido de dar sustentação à circulação simultânea tanto do ouro como da prata. Se a oferta mundial de prata crescesse e seu preço relativo caísse, a prata seria importada para a França para ser cunhada e o ouro seria exportado. A parcela de moedas de prata em circulação na França cresceria. Ao absorver prata e liberar ouro, a operação do sistema bimetálico francês reduziria o suprimento de prata disponível para o resto do mundo e aumentaria os estoques de ouro, mantendo a circulação de ambos na França. Dando margem ao equilíbrio.
Desse modo, o bimetalismo foi mantido por 2/3 do século XIX devida a externalidades em rede, uma vez que havia vantagens na manutenção dos arranjos monetários internacionais adotados por outros países. Visto que, um padrão monetário comum facilitava a tomada de empréstimos no exterior, minimizava a confusão provocada pela circulação interna de moedas cunhadas em países vizinhos e facilitava as transações correntes. Ou seja, simplificava o comércio.
Entretanto, Eichengreen afirma que com a disseminação da Revolução Industrial, que teve como conseqüência a industrialização da Inglaterra e transformou-a na grande potência econômica mundial e de onde provinham os financiamentos; e com a rivalidade internacional que culminou com a Guerra Franco – Prussiana, foram os  responsáveis pelos abalos crescentes de tensões no sistema bimetálico, no qual sua existência passou a ser comprometida.
Desse modo, a adoção do Padrão Ouro pela Inglaterra e depois pela Alemanha em 1871 gerou uma reação em cadeia por parte das outras nações que tinham o interesse em manter relações comerciais e financeiras com estes países. Assim como no sistema bimetálico, o efeito conhecido como externalidades em rede foi o responsável  pela disseminação de um padrão baseado em taxas de câmbio fixas, no qual pressupunha a prioridade dos governos em conservar a conversibilidade da moeda em ouro (a partir de taxas de câmbio fixas). Desse modo, o governo tinha um compromisso de manter a paridade da moeda estável.  Por volta de 1870, por sua influência nos grandes centros comerciais e financeiros, devido ao grande fluxo de ouro e libra, a Inglaterra encabeçava a lista dos principais países, e “obrigava” a adoção do padrão-ouro. Entre os países que  passam a adotar o padrão ouro estão a França, a Alemanha e os EUA.

Primeiro Período do Padrão Ouro (1870 – 1913)


Segundo Eichengreen, o modelo mais simples que ilustra o mecanismo do Padrão Ouro é o modelo de fluxo de moedas metálicas de David Humme. Adotando a premissa que só havia a circulação de moedas de ouro num ambiente no qual o papel dos bancos centrais era nulo, o modelo era o seguinte: um país com déficit comercial, sofrendo perda de ouro, diminuiria a quantidade de moeda em circulação. Em conseqüência geraria a queda dos preços dos produtos domésticos e, dessa forma, uma vantagem competitiva que aumentaria as exportações desses produtos. Logo o equilíbrio comercial seria atingido. Vale ressaltar que esse modelo apresentava duas falhas: não levava em consideração os fluxos de capitais internacionais e as remessas internacionais de ouro, que segundo o modelo deveriam existir, mas na realidade não existiam, estas representavam apenas 38% das reservas de ouro.
É nesse aspecto que se dá a influência dos bancos centrais, cuja atuação se dava no sentido de acelerar o processo de ajuste obtendo o equilíbrio sem que haja saída de ouro. A manipulação do crédito e conseqüentemente das saídas de ouro eram feitas a partir da taxa de redesconto (juros cobrados junto aos bancos mediante o adiantamento do dinheiro por parte do banco central).
A taxa de redesconto tinha influência direta nas taxas de juros, assim quanto maior a taxa de redesconto, maior seria a taxa de juros de capitais que visavam remunerações no curto prazo. Segundo o autor, esse é outro ponto de grande importância no funcionamento do Padrão Ouro: a importância se dá no sentido de que o fluxo de capitais se dava de forma estabilizadora, em outras palavras, havia uma valorização automática da taxa de câmbio. Uma vez que, os países deveriam agir conforme  as “regras do jogo”, entretanto isso não era um problema, pois o sistema gozava de grande credibilidade garantindo que no longo prazo todas as regras seriam respeitadas.
A Inglaterra tem um papel de destaque no funcionamento desse sistema. Era a maior economia credora do mundo e a libra era a moeda chave para as transações internacionais. O Banco da Inglaterra era o banco central mais influente na época, pois determinava e conduzia a taxa de redesconto que os demais bancos centrais deveriam seguir, tendo como finalidade preservar a harmonização das políticas a qual era essencial. Outro papel importante desempenhado pelo Banco da Inglaterra era sua posição de emprestador de última instância.
Ademais, Eichengreen afirma que a França, assim como a Índia e a África do Sul, forneciam estabilidade ao Padrão Ouro. O sistema financeiro francês possuía uma liquidez maior que o sistema inglês, permitindo ao segundo adquirir empréstimos junto ao primeiro. Esses empréstimos faziam com que o ouro fluísse da  França para a Inglaterra e isso foi possível graças aos Rothschild (intermediários entre a prata e o ouro, eram os “protetores” da taxa de desconto). A Índia, por sua vez, denominada de jóia da coroa britânica, possuía déficit com a Grã – Bretanha e superávit com o resto do mundo, uma vez que facilitaram as exportações de matérias – primas e alimentos para os ingleses. Já a África do Sul contribuiu para dar estabilidade ao sistema, uma vez que todo ouro encontrado em suas minas eram comercializados na Inglaterra.
Em contraposição a estes países, os EUA podem ser considerados como os grandes desestabilizadores do sistema. Os EUA passaram por um período de grande expansão no fim do século XIX, e tornaram-se os maiores exportadores agrícolas e produtores industriais do mundo. Além disso, seu sistema bancário era completamente descentralizado e pouco organizado – inexistência de um Banco Central – sendo assim, o dinheiro provindo das exportações ficava dissipado pelo sistema e retido dentro do país. Desse modo, o fluxo de dinheiro em direção aos EUA deveria ser compensado pela Inglaterra, a qual era “emprestador em última instância”, gerando problemas para as contas inglesas.
Triffin, por sua vez, tem como principal critica o mecanismo de ajuste automático de Humme (equilíbrio no Balanço de Pagamentos), o qual se dá pelo ajuste deflacionário, e também de como aconteceu o sucesso da manutenção da conversibilidade da moeda (estabilização do câmbio).
Partindo de um equilíbrio no Balanço de Pagamentos, a aparição de um déficit comercial acontece quando há mais importações e menos exportações do país deficitário para o superavitário. Entretanto, esse déficit se não neutralizado pela economia nacional, leva a uma redução dos preços e salários do país deficitário e um aumento dos mesmos no país superavitário. Desta forma, haverá um ajustamento no Balanço de Pagamentos no país deficitário, uma vez que será compensado pela transferência de capital do país superavitário. Desse modo, tem – se um mecanismo automático.
Triffin, ao criticar o mecanismo de Humme, argumenta que outros fatos mais complexos devem ser levados em consideração para explicar o ajuste do Balanço de Pagamentos e que isso não acontece automaticamente. Para provar seus argumentos, Triffin observa através de dados que há um paralelismo na variação entre as importações e exportações e dos preços dos países deficitários e superavitários, e não uma divergência.
O autor argumenta também que o mercado de descontos de Londres financiava as exportações dos países menos desenvolvidos, o que levava ao ajuste no Balanço de Pagamentos. Os livres movimentos de capitais também ajudaram a balançar o equilíbrio, através do aumento da conta capital, podendo assim haver déficits em conta corrente que não necessariamente iriam se ajustar automaticamente. Mas os países que possuíam déficit e se financiavam com a conta capital, eram instáveis, pois havia um influxo de capitais nas épocas de prosperidade e saída de capitais nas épocas difíceis. Portanto, o paralelismo entre as variáveis preço, importação e exportação entre os países não é válida para todos eles.
Para Triffin, este mecanismo automático funcionava somente nos países mais desenvolvidos (centro) e não nos países em desenvolvimento (periferia). Desse modo, o autor reinterpreta este mecanismo através da mudança na configuração cíclica dos movimentos de capitais, que causava estabilidade nos países centrais e instabilidade nos países periféricos.
O processo de ajustamento não tinha como objetivo o equilíbrio do Balanço de Pagamentos, pois os déficits ou superávits grandes eram compensados pela conta capital e havia também a política monetária e de crédito dos bancos centrais que preservava a taxa de câmbio fixa do Padrão Ouro. Portanto, o ajuste se dava ex ante e não ex post. A expansão de crédito pelo Banco Central foi limitada devido aos déficits e perda de ouro para o exterior, mas também pela perda de ouro internamente causada pela transferência para os bancos comerciais.
“Muitas vezes credita-se o Padrão Ouro como tendo conciliado em grau sem precedentes a estabilidade de preços com uma alta taxa de crescimento econômica no decorrer do século XIX”. Segundo Cassel, os preços seguiam a descoberta de novas minas de ouro e, portanto, os preços não eram estáveis. Mas Triffin argumenta que este paralelismo entre preço e descoberta de ouro era falho, por não dar conta completa dos fatores complexos do crescimento econômico.
Já em relação à conversibilidade, os bancos precisavam ter altas reservas de ouro para mantê-la e poderem ser negociadas com o exterior, pois a emissão de papel – moeda era feita internamente.
A estabilidade do câmbio decorrente dos aumentos de papel – moeda nesta época pode ser explicada pela harmonização das taxas nacionais de expansão monetária e creditícia; e pela flexibilidade e rápida adaptação das instituições bancárias e monetárias. De início, estas mudanças contribuíram para a manutenção de taxas altas e expansão monetária. Porém, a evolução lenta do sistema monetária internacional aos requisitos de crescimento econômico foi brutalmente interrompida pela Primeira Guerra Mundial.
Em suma, para Triffin, o Padrão Ouro era um desestabilizador do sistema monetário internacional, uma vez que só era estável nos países centrais e não nos países periféricos.   

Considerações finais   

Concluo, depois das considerações acima expostas, que entre o bimetalismo e o padrão-ouro -  este último e o que apresenta mais estabilidade, uma vez que não abre margem alguma para a arbritagem, já que o câmbio era fixo, contando ainda para isso (manutenção da taxa de câmbio), com a colaboração dos bancos centrais em manter essa paridade,  fora o fato de existirem mecanismos de ajustamento do sistema, como: a taxa de redesconto e o mecanismo de ajuste automático de Humme. Entretanto, esta conclusão, como observamos em Triffin, era limitada as nações já desenvolvidas (centro) e não aos países em desenvolvimento (periferia), ou seja, o Padrão Ouro era um desestabilizador do sistema monetário internacional, uma vez que só era estável nos países centrais e não nos países periféricos.  
A conclusão final que chegamo é que o padrão-ouro era instável, mas a Inglaterra mantinha  a sensação de estabilidade devido a sua importância no cenário mundial. Com a mudança no cenário e a queda da hegemonia inglesa o sistema acaba se ruindo, consequência direta do início da Primeira Guerra Mundial. O padrão mundial durou de 1870 a 1914, contudo sua estabilidade foi uma mera sensação.

Frederico Matias Bacic

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